“Meus olhos pretos, feito duas jabuticabas maduras vagavam pelo desprovido apartamento atapetado de quartos conjugados, onde meus dedos finos e brancos, com unhas ruidas e pintadas de vermelho sangue tamborilavam na end table de madeira maciça, ao som do piano do vizinho de cima. “Boa gente o Bertie”. Mas quem não é hoje em dia? Quem não foi? As vezes eu me pego olhando pra esses parágrafos que se abrem em meio a vida, essas lacunas de ódio que infiltram em qualquer feridinha que se abre. Como a vida é uma via de mão dupla, aqui se ama, aqui se fere. Onde, não sabemos, ao menos se estamos seguindo na direção correta. O amor acaba, meu amigo, do mesmo jeito que começa. Numa esquina na Cidade Luz, numa prainha no Rio ou um teatro malcheiroso em Londres. Acaba como um apagão geral, do nada, sem motivo, simplesmente acaba, porque tem que acabar. O amor detém da mesma alma que o réu sanciona a própria execução. São daquelas pequenas palavras de significados incontáveis, amor é em suma, não saber, é o grito de horror do sorriso mais agridoce, e a maior das metáforas, e pleonasmos errantes. Amor é daqueles jogos que tu joga por jogar, sabendo quem vai ganhar. Amor é tudo aquilo que Shakespeare proferiu, e muito mais. Mas o amor, aquele amor à mil maravilhas, acaba. Ás vezes o amor acaba no friso das poesias, ou em uma infecção estomacal, nos meros detalhes de uma frase, ou no menor brilho do olhar. O amor acaba e a gente sempre acaba numa esquina qualquer, reclamando dos mesmos desamores.” Natália Castro, muitezas.

